Por uma arquitetura positiva

Por uma arquitetura positiva

Quando me formei em Arquitetura e Urbanismo, eu entendia que nós arquitetos deveríamos criar condições para sempre melhorar a qualidade de vida da população. A responsabilidade do ofício é bastante grande, entramos na vida das pessoas, interferimos no ambiente, somos responsáveis pela transferência de toneladas de materiais por todo o globo e alteramos condições físicas e sociais – tudo através do desenho. Entendia que era por isso que a palavra “sustentabilidade” permeava a maioria dos projetos de edifícios e cidades, mas não compreendia o que de fato esse termo significava.

Assim, fui estudar mais a fundo a tal da “sustentabilidade” no ambiente construído. Nessa pesquisa, eu entendi que o estado da arte passava por duas soluções. A primeira se resumia a checklists de instituições certificadoras, os quais solucionam a questão através do desenho de edificações eficientes e de alta tecnologia, mas que se restringem entre seus muros. A segunda solução, por vezes mais poética, sugere a volta de técnicas tradicionais e artesanais que me lembravam as minhas aulas de história sobre William Morris frente à Revolução Industrial. Essa solução deveria ser reforçada ora pela diminuição da população, ora pela redução do nosso padrão de conforto atual, e teria como objetivo atingir o mínimo consumo de recursos  através de um design de “baixa estima”.

Apesar de entender a boa intenção dessas ferramentas, eu ainda acreditava que deveria haver uma solução mais abrangente que pudesse solucionar a atual questão econômica-ambiental. Acreditava que éramos capazes de desenvolver edifícios e cidades positivas, que poderiam ao mesmo tempo se apoiar nas técnicas de produção de massa adquiridas pela tecnologia industrial e ser saudáveis e benéficos para as pessoas e para o meio ambiente.

Foi quando eu me deparei com o livro Cradle to Cradle (2002) de Michael Braungart e William McDonough, um engenheiro industrial e um arquiteto, que afirmam que a solução desta questão com a qual me deparava estava simplesmente no desenvolvimento de um design de qualidade. Eles propõem a inversão do nosso paradigma atual de produção – um sistema linear, no qual extraímos, produzimos, consumimos e descartamos – para um sistema circular, a partir do uso cíclico de recursos.  Para que isso seja possível, devemos entender as regras da natureza e mimetizarr sua lógica em nossos sistemas, produtos e processos. Nesse modelo, a natureza não é mais vista como um “empecilho”, mas deve ser entendida como a solução.

Vamos pensar em uma árvore. Ela cria habitat para outras espécies, armazena carbono, fixa nitrogênio, e filtra a água que consome. E ela produz frutos, os quais nos alimentam, e suas flores e folhas nutrem a terra e se tornam sustento para outros animais e plantas. Ela também refresca o ambiente e nos fornece sua agradável sombra para que possamos descansar. A árvore usa a energia do Sol para produzir seu alimento e sua intenção como ser vivo é de crescer, se replicar e se tornar cada vez mais abundante…

Como essa árvore, um edifício que reproduz a lógica de um organismo vivo é projetado para se adaptar e evoluir ao longo do tempo. O edifício tem iluminação e ar fresco abundantes, ele capta e reusa a água infinitamente, pois se entende que este é um bem precioso. É orientado e alimentado pelo Sol, tem espaços saudáveis que promovem a vida em comunidade e conectivi­dade. E, por fim, utiliza materiais seguros e na­tivos que retornam para seus ciclos, sejam eles biológicos ou técnicos.

Um edifício ou qualquer área construída inspirado no Cradle to Cradle é entendido como um banco de materiais – e cada material tem o seu devido valor, que deve ser recuperado quando seu uso não for mais necessário. Para isso, a edificação  deve ser desenhada para ser desmontável, e mais importante do utilizar materiais reciclados é que eles sejam recicláveis para os próximos ciclos. Os materiais e sistemas devem ser livres de elementos tóxicos (mutagênicos, cancerígenos ou disruptivos) e aqueles que tenham efeitos positivos para o ambiente devem ser priorizados. Esse é o caso de carpetes que purificam o ar, ou biossistemas que filtram a água através de plantas e animais, e dão suporte à biodiversidade.

Hoje eu me vejo feliz por ter encontrado uma solução que responde às minhas expectativas, e aliviada por entender o caminho que devo trilhar em relação às minhas responsabilidades e objetivos ao elaborar um projeto de arquitetura e planejamento urbano. Porém, desde que eu me deparei com o C2C, me dei conta de que toda esta questão é muito mais abarcante do que eu pensava inicialmente. Assim como as cidades precisam de seus edifícios bem desenhados, esses edifícios necessitam do design de qualidade de cada produto e sistema nele inserido – desde seus pilares aos materiais utilizados para sua limpeza.

Compreendo que não vai ser fácil alcançarmos esse futuro de abundância, que vai além de um balanço montado em um tripé. Mas o lado positivo é que eu venho me deparando nesse caminho com uma séria de pessoas, empresas e instituições que compreendem a necessidade dessa mudança de modelo e vêm se empenhando para que isso de fato possa acontecer.

sobre a autora:

Léa Gejer é arquiteta e urbanista e mestre em gestão ambiental urbana, com especialização em Cradle to Cradle no ambiente construído. Atualmente empreende a Flock, onde trabalha com design circular aplicado a projetos e consultoria em arquitetura sustentável, desenho de produtos, planejamento urbano e regional e economia circular.

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Léa Gejer
lea.gejer@gmail.com

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