Bate-papo com a Coca-Cola Brasil sobre economia circular

Bate-papo com a Coca-Cola Brasil sobre economia circular

Nesta semana, você confere nosso bate-papo com a equipe de sustentabilidade da Coca-Cola Brasil. Conversamos com Andrea Mota, diretora de sustentabilidade, e Thais Vojvodic, gerente de sustentabilidade, para, entre outros assuntos, entender como a empresa fará para cumprir o compromisso de reciclar todas as suas embalagens até 2030. Algumas das perguntas realizadas foram enviadas por nossa audiência.

 

Qual é o plano de ação para reciclar todas as embalagens até 2030?

Andrea Mota: O plano é baseado em três pilares. O primeiro pilar é formado por redesenho, reuso e reciclagem. Como exemplo, o desafio de aumentar a matéria-prima reciclada nas embalagens dos produtos. Mais de 60% do alumínio das latas é reciclado, e queremos aumentar essa participação. O segundo pilar é o reuso, ou seja, como aumentar a participação de embalagens que tenham esse ciclo de vida retornável. Hoje em dia, as retornáveis são responsáveis por 15% do portfólio. A ideia é atingir 30% de produtos ou embalagens retornáveis. O terceiro pilar é a reciclagem e, por isso, todo nosso esforço para trabalhar com as cooperativas de reciclagem.

Quais departamentos se envolvem da Coca-Cola Brasil? Para quais produtos?
(pergunta enviada pela leitora do blog Denise Bayeux)

Andrea Mota: Estamos em processo de amadurecimento para conexão de áreas que lidam com embalagens, mas sem governança formada sobre isso. De qualquer forma, além da área técnica, as de marketing, de operações, de sustentabilidade e de inovação estão envolvidas. A área de sustentabilidade faz o papel de conexão e de construção da visão a longo prazo. Quando o tema deixa de ser só uma questão de sustentabilidade e passa a ser uma meta de negócio, a empresa inteira precisa entender o assunto. A área comercial tem que vender mais embalagens retornáveis porque há esse compromisso firmado até 2030, que entra como norte dos resultados que devem ser buscados.

Quais são as mudanças na área de operações para que seja possível colocar o projeto em prática? (pergunta enviada por Mariana Zuccoloto)

Andrea Mota: As fábricas precisam investir mais em linhas de produção voltadas para a embalagem retornável. A Coca-Cola precisa investir em campanhas para o consumidor entender a importância desse tipo de embalagem. A retornável até hoje é considerada econômica pelo consumidor – você só paga pelo litro. A gente começou a perceber que há muito mais valor do que isso. Precisamos achar a forma certa de contar isso para as pessoas: como a gente conta para as pessoas que aquela embalagem é econômica, mas também valiosa do ponto de vista ecológico e de sustentabilidade. As metas de venda estão sendo adaptadas para esse propósito.

Como é o processo de reciclagem de vocês? Quais ações são desenvolvidas?

Thais Vojvodic: Sobre a forma que a gente recicla, nosso principal desafio é o PET. Para alumínio e vidro, nossa meta é fazer com que haja cada vez mais conteúdo reciclado nas embalagens novas. O índice de conteúdo reciclado nas embalagens novas passa de 60%. O PET tem indicador menor – 35% das embalagens têm algum conteúdo reciclado. Nossa prioridade é fazer com que nossas embalagens continuem sendo embalagens, ou seja, que os materiais continuem no mesmo ciclo de uso. Nosso desafio é conectar as cadeias para reutilizar cada vez mais os materiais dos produtos, evitando assim que eles venham a ser empregados em indústrias de menor valor.

As retornáveis podem ser reutilizadas até 25 vezes, de acordo com o site da Coca-Cola. Por que esse número e como fazer o controle?

Thais Vojvodic: Esse é o ciclo de vida máximo de garrafas PET e de vidro por causa do estresse do material que é natural de acontecer. Depende muito, no entanto, de como o consumidor utiliza a garrafa: ele pode bater, derrubar no chão, diversos motivos podem causar dano irreversível. Quando ela não é mais própria para uso, é descartada de forma correta. As embalagens são encaminhadas para a reciclagem, não gerando resíduo para aterro sanitário ou incinerador. Na hora que a gente recebe os engradados com as garrafas vazias, elas são analisadas para que seja possível separar aquelas que ainda tenham vida útil. O problema está quando o consumidor inviabiliza a continuidade da utilização, colocando, por exemplo, querosene dentro da garrafa, já que sou obrigada a interromper o ciclo de uso, não chegando assim às 25 vezes possíveis.

Andrea Mota: Um case bem legal é que todas as garrafas de vidro da FEMSA, maior engarrafadora de Coca-Cola na América Latina, são encaminhadas para a Natura para que sejam usadas como frasco do perfume. Já não mandamos para a reciclagem de forma aberta, mas direcionamos para um fabricante específico. Existe, aliás, olhar de gerenciamento de resíduos em cada fábrica.

A cor da garrafa PET é importante para a reciclagem? A embalagem PET do Guaraná, por exemplo, é 100% feita de materiais reciclados.

Thais Vojvodic: É importante comparar a garrafa PET transparente com a PET verde para entender o limite de reciclagem sem afetar a cor da embalagem. Na garrafa transparente, o limite é 50% – mais do que isso afeta a transparência. A garrafa verde não tem esse limite. A Coca-Cola global colocava pouco tempo atrás como limite a porcentagem de 25% – passou a ser 50% recentemente. Se estiver um pouco turvo, não há problema porque o consumidor entende o valor desse reaproveitamento.

É usado antimônio nas garrafas PET da Coca-Cola? Caso positivo, existe política específica ou estratégia de eliminação dessa substância?
(enviada por Cristina Macedo)

Thais Vojvodic: Somente no início do processo. É uma substância usada para tornar a resina pós-consumo própria para ser usada em embalagem de alimento. Na resina final, garantimos que não há residual de antimônio. Isso é atestado pela Anvisa – Agência Nacional de Vigilância Sanitária – e por todas as políticas da Coca-Cola que são mais criteriosas do que a própria Anvisa. Nossos parâmetros indicam que não há residual dessa substância na resina final.

Pesquisa recente encontrou milhares de partículas microscópicas de plástico nas garrafas de água de grandes marcas, inclusive a Coca-Cola. Vocês têm a preocupação de evitar a contaminação por microplásticos nas garrafas?

Thais Vojvodic: É uma crise global. O problema é realmente grande. Minha crítica à reportagem que foi divulgada recentemente é que o microplástico não está apenas na água engarrafada, mas em todos os lugares. O problema não é a água estar engarrafada. Nossa atuação é ter um plano global para evitar que o plástico chegue ao meio ambiente e ao ser humano. Queremos evitar a contaminação. Nosso processo de filtragem é seguro por seguir as regulamentações internacionais. Infelizmente, o planeta está sofrendo o impacto do estilo de vida que a gente leva.

 

Algumas pessoas da nossa rede questionaram, para além da embalagem, a saúde e sustentabilidade do próprio produto. A Coca-Cola está olhando para os impactos negativos do seu consumo para a saúde humana?

Andrea Mota: A gente não olha apenas para como a gente faz. Olho para aquilo que eu faço também, como as categorias em que atuo, e se elas são sustentáveis. Há uma preocupação cada vez maior com o alimento consumido pelas pessoas, com o impacto para a saúde. O açúcar é uma preocupação nossa. O brasileiro tem relação com o açúcar que vem desde a colonização. Porém, em excesso, ele não é bom. A OMS – Organização Mundial da Saúde – recomenda limitar o uso de açúcar. A gente vem mudando nosso portfólio por meio da transformação das nossas receitas, que já têm menos açúcar, tanto de refrigerantes como de sucos.

Estamos também melhorando o perfil nutricional, ampliando o portfólio para outras categorias que ganham relevância como lácteo. Estamos ainda oferecendo opções para que as pessoas ingiram menos calorias. Também não fazemos marketing para crianças. A fórmula da Coca refrigerante não muda porque a Coca não é mais nossa. Ela pertence ao consumidor. Cometemos esse erro de mudar anos atrás, o que gerou problema. Isso não me exime da responsabilidade de encontrar alternativas. Para a Coca, buscamos outros sistemas de adoçamento como a Coca-Cola Stevia. Nosso grande objetivo é encontrar um sistema de adoçamento natural sem calorias.

Na mesma linha, para além das embalagens, uma das grandes questões socioambientais da atuação da Coca-Cola é o uso de água como insumo principal. Nas últimas décadas, vieram à tona os efeitos negativos dessa extração em algumas comunidades da Índia e da África, contribuindo para o esgotamento das fontes locais e contaminação por resíduos tóxicos como cádmio e chumbo. Como a Coca-Cola lida com o direito de acesso à água hoje em dia? O que acontece com os resíduos de produção de bebidas? (enviada por Thábata Ribeiro)

Andrea Mota: Para nós, água não é apenas tema de sustentabilidade. Água é a sustentabilidade do nosso negócio, a continuação dele. Precisamos usar água de forma responsável. A água predomina no nosso produto. Reconhecemos que se trata de um bem mundial, algo de que as pessoas precisam para viver. Temos uma série de iniciativas para protegê-lo, para gastar racionalmente.

Para que não aconteça contaminação, toda vez que abrimos uma fábrica, fazemos uma série de estudos como impacto nas bacias. ANA – Agência Nacional de Águas – e outros órgãos acompanham esse trabalho. É o mínimo que se espera de uma empresa como a Coca-Cola, é política de compliance. Preciso usar esse recurso da forma mais eficiente possível e com o menor impacto possível para a comunidade. Nossa tolerância é zero com vazamentos como aqueles que possam atingir os sistemas hidráulicos das fábricas. Outra coisa: o volume de água usado para produzir um litro de bebida só cai. Gastamos hoje em dia 1,78 litro de água para cada litro de bebida produzido. Esse número já foi mais de dois para um litro de bebida. Em 15 anos, diminuímos o gasto em 30%. A gente continua implementando essas ações para consumir o mínimo de água para a produção de cada litro.

A gente se preocupa também com nossa cadeia de fornecedores. A Coca-Cola é a empresa que mais compra frutas no Brasil. De onde vem a fruta? Essa é a pergunta que fazemos sempre antes de comprar. Privilegiamos a compra de pequenos agricultores. Recentemente, apoiamos um projeto de inovação: um dispositivo que torna mais eficiente o uso de água no plantio dos agricultores parceiros. O agricultor põe o dispositivo no solo, que cruza as informações com dados de previsão de chuva, tudo isso em um aplicativo, e chega a recomendação sobre a necessidade de regar ou não. 

Só para fechar o tema da água. Temos trabalho de replantio de árvores. Preservamos mais de cem mil hectares na Amazônia. Temos trabalhos parecidos em todo o Brasil para preservar aquíferos. Metade da população brasileira não tem acesso à água e ao esgoto. Criamos um programa chamado Água+Acesso, que tem como objetivo ampliar o acesso das comunidades rurais à água segura e de forma sustentável. Desde o lançamento, já mobilizou R$ 25 milhões para investimento até 2020. Estamos trabalhando com diversas organizações em todo o país nesse programa. Cada uma delas com a solução específica da sua região como perfuração de poço, que funciona apenas em alguns lugares.

No mês passado, aconteceu o Fórum Mundial das Águas, em Brasília, e, nas redes sociais, foram espalhados rumores sobre a exploração do Aquífero Guarani. Esses rumores têm fundamento? Existe negociação com o governo nesse sentido ou intenção de obter os direitos de exploração desse aquífero?

Andrea Mota: A Coca-Cola não está negociando a compra de qualquer aquífero. Isso é evidentemente inconstitucional. A água é um bem público e, portanto, inalienável. Para explorá-la, há um processo de outorga, ou seja, um processo de autorização. Se você tem um terreno e descobre que tem água mineral, é preciso pedir uma outorga, que demora de dois a três anos. É feito um estudo pela empresa e submetido à aprovação do governo. Depois desse processo, em caso de aprovação, você pode envasar a água. A água é um bem da humanidade, e o que nós fazemos é o serviço de envasar. O que fazemos nas fontes é um serviço de colocar essa água mineral em uma garrafa. Durante o próprio Fórum Mundial das Águas, anunciamos a abertura das nossas fontes. Qualquer pessoa que queira ir a uma das fontes administradas pela Coca-Cola pode encher seus recipientes de água gratuitamente e levá-los para casa. Atuamos em oito fontes no Brasil. O projeto de abertura das fontes é uma iniciativa da Coca-Cola Brasil.

Quais condições institucionais são necessárias para implantação da Economia Circular no Brasil? (enviada por Cledio da Silva)

Thais Vojvodic: A economia circular é sistêmica, não depende de uma iniciativa apenas. É uma mudança de lógica econômica: economia linear para economia circular. Parte desse novo desenho passa pelo reaproveitamento daquilo que seria descartado. Estabelecer uma economia circular é altamente complexo. Essa transição é difícil. O mais difícil é uma mudança de cultura, da lógica, de mindset… A gente só consegue ser sustentável no longo prazo se houver essa mudança de lógica econômica. Isso depende das empresas, das pessoas… É a mudança de mindset de uma cultura, de uma sociedade… Claro que as iniciativas das empresas são importantes porque elas promovem essas mudanças de forma tangível. Precisa ficar claro que a mudança não é da área de sustentabilidade, mas de toda a empresa.

Quais são os benefícios e custos reais dessas transformações para a empresa? (enviada por Lucia Sígolo)

Thais Vojvodic: Caso seja implementada amplamente, a economia circular faz sentido financeiramente por exigir menos necessidade de exploração de produtos novos e menos perdas. A economia linear é puro desperdício porque plástico, metal, tudo isso tem valor econômico, mas vai parar no lixo. Se para no aterro ou no oceano, é perda de valor obviamente. Financeiramente, isso não é nada inteligente. A transição para a economia circular é difícil, mas há muitos benefícios envolvidos nisso. A gente apoia firmemente a economia circular. Somos parceiros da Fundação Ellen MacArthur. 

Quais são as diferenças de custo e fabricação entre as embalagens descartáveis e retornáveis?

Thais Vojvodic: Quando a gente fala em expansão dos retornáveis, isso significa expansão das linhas de produção desse tipo de garrafa. Até 2020, aqui no Brasil, 1,6 bilhão de reais serão investidos nas fábricas para expansão das embalagens retornáveis, o que significa investimento em novas linhas de fábricas, novos vasilhames, campanhas de marketing e apoio a cooperativas.

A embalagem descartável é soprada dentro da fábrica. A gente compra do fornecedor uma pré-forma apenas, que é depois soprada e envasada. A retornável já vem soprada do fornecedor, ou seja, um processo diferente. Ela é mais resistente para aguentar a triagem. A linha de produção é outra, uma linha exclusiva que só opera esse tipo de produção. Para essa linha, preciso remanejar os espaços na fábrica, dando mais espaço para a retornável. Não há outra forma que não seja fazer obra na fábrica. Lembrando que a garrafa retornável tem como embalagens tanto o vidro como o plástico. 

 

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